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CEOs mentem: a suspensão de descrença na comunicação corporativa.

A linguagem corporativa é feita para você acreditar em coisas sem questionar, como isso acontece?



É interessante pensar que, eu, um jovem de origem periférica, com um networking bem feito, esforço e uma estratégia bem executada, eu - que passei fome em 2020 durante a pandemia - em três anos me tornaria o profissional de comunicação mais bem pago da minha cidade. Pensando nisso, tenho apenas uma pergunta para fazer para o leitor desse conteúdo.“


A citação acima contém uma mentira sobre minha vida, em que trecho do enunciado acima eu menti? No final desse texto falarei a verdade.

A cada dia, todas as redes sociais, principalmente o LinkedIn, estão recheados de conteúdo sobre mercado, saúde, empreendedorismo e diversas outras áreas baseados em supostas situações que nada diz que elas são verdadeiras, mas que muitas pessoas tomam essas histórias como as maiores verdades de suas vidas. Essas pessoas (incluindo você) caem em um dos mais velhos truques da literatura, truque que transformou os abastados mais Filhas da P&#$ da literatura em heróis. A suspensão de descrença.


A suspensão de descrença é nossa forma de ignorar a realidade e acreditar nas regras de uma realidade alternativa que é nos apresenta. Sem ela, seria impossível se empolgar com explosões em Star Wars ou temer que um brinquedo assassino pode nos matar a qualquer momento. Na prática, ela é um recurso literário que nunca funciona sozinho, precisa de algo que o apoie e faça que o leitor naturalmente caia nessa armadilha textual.


 

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O termo “suspensão de descrença” foi citada pela primeira vez em 1817 pelo filósofo estético Samuel Taylor Coleridge, porém hoje em dia um local que encontramos o uso dessa ideia como recurso literário é na maior rede social de trabalho e vida corporativa. O LinkedIn.

No LinkedIn é onde encontramos o suprassumo da cultura corporativa de todo mundo, mas nesse texto vamos se focar no que acontece principalmente entre os usuários brasileiros.

Apesar de temos uma cultura corporativa que compra muito do que é tendência no exterior, a gente tem um jeitinho muito brasileiro de falar e pensar nessa rede.

O Brasil é um pais que tem em sua cultura a imagem do trabalho e do trabalhador extremamente romantizada, quando um jovem periférico é abordado pela polícia, é frequente que ela seja vítima de alguma violência, e como defesa, dizem “sou trabalhador” em seguida, a situação desenrola (e geralmente a violência continua), mas o título de trabalhador vem para trazer uma contraposição ao termo “bandido” que representa, principalmente, para as classes dominantes a todos os valores de uma boa pessoa, pois o contrário de trabalhador seria “bandido” Para os meninos, é muito comum ser ensinado que para você um dia ter uma namorada, uma das primeiras coisas que ele deve ser é trabalhador, na cultura brasileira ser “trabalhador” é sinônimo de honestidade e quanto mais você trabalha, mais honrado você é, esse simbolismo sobre o trabalhador pode ser encontrado em nossa arte, literatura, música e diversas outras expressões culturais em diversas épocas, de formas problemáticas ou não. O que difere o Brasil colonial e escravocrata é a inocência. No mundo da “industria 4.0” muita coisa mudou de cara, mas não de forma. Muito recebeu um rebranding, e encheu o imaginário do trabalhador precariado de esperança. E uma das frases que minha série favorita me ensinou é que “só tem esperança quem não aceita que a vida muda.”


A esperança de que todo esforço será premiado com meritocracia, deve ser alimentado de alguma forma e por isso o discurso meritocrático não só interfere em nossas rotinas de trabalho, mas também em como vemos o mundo, em nosso psicológico e emocional. Discurso. Essa palavra dever foco ao pensar sobre o porquê essa suspensão de descrença existe com tanta força em textos, memes, vídeos verticais de consumo rápido e eu deixo claro, precisamos sim pensar sobre o que falamos, para refletir sobre as consequência do que ensinamos como ético e correto.

A suspensão de descrença é uma questão estética usada como recurso literário, hoje temos imagens de pessoas em subempregos, sem questionar o porquê estão lá, e consideram uma benção pouca remuneração e muita exploração. E o pior, acham que a culpa é única e exclusivamente sua, que todos têm as mesmas chances, que todos têm apenas o que merece, seja algo bom, ou algo ruim. Todos os criadores de conteúdo tem que ter responsabilidade ao falar e LinkedIn é um local que prova que a cada dia, isso anda ficando mais raro Com a atual onda de demissões em massa em diversas empresas de tecnologia pelo mundo, se habituamos aos discursos de agradecimento pelo tempo em que se esteve nesse trabalho e como todo fim é gratificante, independente do fato que sua demissão mau é justificada, se as ações da empresa estão em alta ou em baixa, ou se você era bom eu seu serviço. Não Importa. Sorria. A plateia ainda aplaude, ainda pede bis, a plateia só deseja ser feliz.

Histórias de vitória e derrota são aceitas apenas com o filtro de uma realidade estranha, que se refletida de verdade, é dolorosa e desmotivacional para muitos. Mas você busca sucesso? É bom pensar em quem te ensinou o que é sucesso, e principalmente, o que é sucesso?

O que posso afirmar é que, eu não passei fome durante a pandemia, mas passei muita dificuldade e estou longe de ser o profissional mais bem pago da minha cidade, nem sei se é possível estipular isso de forma realista. A verdade que precisamos ter mais cuidado e responsabilidade sobre o que falamos nas redes, principalmente quando abordamos temas tão delicados quanto a vida profissional e os sonhos das pessoas. Somos consegue moldar sonhos e se você chegou até o fim desse texto, eu digo a você, melhore, seja melhor, seja bom, e honesto.


Cuidado com o bicho-papão do CEO biruta, ele vai sucatear sua profissão, trabalhe por um mundo melhor e por mais momentos de descanso e entretenimento. Eu prometo, vai dar certo… O meu ver a felicidade é sucesso, e o que é felicidade, só você poderá dizer o que é para si mesmo.


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